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Para Sermos Melhores Adultos

Tenho um amigo que diz que tem medo de velhos. Que naquele momento em que vemos um velhote e nos enternecemos, oferecemos ajuda, somos gentis e amáveis com ele, este meu amigo fica com um pé atrás.

“É muito lindo tudo isso de tratarmos os velhotes com muito carinho, mas nós não sabemos o que essas pessoas foram na sua vida. Não sabemos a quantas pessoas assassinou, maltratou, não sabemos qual foi a conduta dela enquanto tinha a força da juventude. Não sabemos como é o seu coração, mas agora só pela idade lhe ter posto numa posição de vulnerabilidade já merece todas as atenções?”








Fomos, e muito bem, ensinados a respeitar os mais velhos. É algo que admiro bastante na educação angolana, africana. Pomo-los num pedestal e devemos respeitá-los sempre, não importando a circunstância.


O que o meu amigo disse, deu-me que pensar. Nessa visão, se por um lado devemos tratar a todos bem, por outro realmente, não é a idade que nos dá automaticamente o direito de sermos postos num pedestal, mas sim a nossa conduta.


Mais jovens e mais velhos sempre tiveram choques geracionais. As nossas formas de pensar e agir mudam consoante o tempo em que vivemos, é normal. Mas o respeito uns pelos outros, e a qualidade das relações é importante que seja uma preocupação que flua tanto de do mais novo para o mais velho, como do mais velho para o mais novo. O que acontece para que estes choques geracionais não deixem de existir é o não fazermos o esforço por nos lembrarmos de como era quando nós é que estávamos no lugar abaixo.


É muito normal que passemos por coisas desagradáveis quando estamos na posição de menor poder quando são os que têm maior poder que nos fazem passar por elas. Reclamamos delas, mas não podemos fazer nada pois (ainda) somos impotentes. Mas sabemos que um dia vamos chegar ao lugar de poder e aí vamos poder ser nós a disfrutar das regalias desse lugar.


O que acontece de facto é que quando chegamos lá pensamos: agora é a minha vez!

Isto está em quando somos o peão e depois passamos a ser o condutor, quando somos o aluno e depois passamos a ser o professor, quando somos o subordinado e depois passamos a ser o chefe, quando somos o mais novo e depois passamos a ser o mais velho…

Essa espera frustrante em que acumulamos mágoas e raivas mal resolvidas nos leva ao chegar finalmente ao lugar de poder e a fazer ao que tem menor poder o mesmo, ou pior, do que nos foi feito a nós. Aí está o nosso erro.


Se por um lado tudo acabará quando lá chegarmos, por outro nada fizemos para encarar de forma mais construtiva e curadora essa situação. E quando lá chegamos não aprendemos nenhuma lição para poder mudar o status quo e fazer com que a relação de toxicidade não se perpetue.


Muitas vezes ao tentar mudar a narrativa, qualquer ação que tomamos para nos impormos como pessoas que merecem ser respeitadas é recebida por um mais velho com despeito e como um ato de desrespeito a ele. Quando não há contra-argumentos para os argumentos que pomos na mesa que validam as nossas posições e posturas como mais novos, esta é a última cartada dos mais velhos “estás a faltar-me o respeito”. Enquanto aceitarmos que lhes estamos a faltar o respeito e não nos dermos a nós mesmos a devida dignidade, a revolução não acontece.


Nós mais novos, defendermo-nos do abuso de poder dos mais velhos, não é um ato de desrespeito ao mais velho, mas sim um ato de respeito por nós mesmos.

Vezes sem conta nos desrespeitamos a nós mesmos, à nossa integridade, à nossa estabilidade emocional e saúde mental, por deixarmos passar os abusos de poder dos mais poderosos, estejam eles em que cadeira de poder estiverem. A da idade, a do cargo público, a da conta bancária…


Se não nos respeitarmos enquanto estivermos numa posição inferior vamos algum dia saber respeitar o outro, quando ele estiver numa posição inferior a nós?

É difícil, porque quem identificamos como merecedor de respeito é o ser superior e não o inferior. Do ser abaixo exigimos obediência incondicional, na falta dela conhecemos consequências aos seus atos, não conhecemos respeito por esse ser.

Quando ser abaixo, condicionado por este sistema, sabemos que todo nosso agir terá uma consequência, então não nos posicionamos, mesmo que isso requeira violar a nossa integridade e dignidade para não sofrermos a retaliação do mais poderoso.


Mas quando o mais poderoso somos nós, já não temos ninguém a quem obedecer, acreditamos que se deve a dita obediência a nós. E aí perpetuamos o ciclo.


Não nos respeitarmos a nós próprios, não impondo limites nas nossas relações, permitindo que outros mais poderosos violem o nosso espaço e dignidade cria-nos traumas e marcas que atravessam o tempo e se refletem no nosso futuro e nas gerações que vêm a seguir.


Ainda assim, podemos curar essa relação e posicionar-nos de forma a respeitarmos os mais velhos e a nós mesmos. Uma relação saudável requer para além do respeito mútuo o respeito de cada indivíduo por si mesmo. Todos nós temos os nossos limites, a nossa medida de largura emocional que tolera certas coisas de forma saudável, mas não encaixa outras sem que fiquemos marcados negativamente.


Se nos respeitarmos a nós mesmos e vermos que todos os outros, velhos e crianças têm também esse direito ao autorrespeito e a serem respeitados, vamos conseguir travar com a toxicidade das relações marcadas pelo abuso de poder por estar no lugar em que “idade é posto”, e sermos adultos melhores e verdadeiramente merecedores desse posto.


Sara


Foto: Media do Wix

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