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Criar Uma Criança Em Comunidade

Subunfo Somé e Malidoma Patrice Somé, um casal de escritores de Burkina Faso, são um deleite ler. Muito se aprende com eles sobre a cultura, espiritualidade e tradições do povo Dagara que na aldeia onde eles nasceram preserva ainda os seus costumes tradicionais de raiz africana bem presentes na vida da comunidade, família e nas suas práticas espirituais.





Com eles aprendi muito sobre o poder da comunidade.


Todos os animais se reúnem em comunidade, se protegem, se alimentam uns aos outros, se ajudam e socializam. Nós humanos fazemos o mesmo. Temos também os nossos desentendimentos uns com os outros, dentro das estruturas familiares e dentro da sociedade. Há seres humanos com os quais não somos compatíveis, mas outros que nem sequer nos imaginamos viver sem. Mas para qualquer lado que nos viremos existe a comunidade, sã ou doente.


É impossível vivermos na estrutura social que temos sem a comunidade: temos quem nos faz o pão e trocamos dinheiro por esse pão para nos alimentarmos. Temos quem nos cuida da nossa saúde, quem nos prepara documentos, quem nos presta serviços domésticos ou corporativos e precisamos deles, como eles precisam do que lhes damos em troca por esses serviços e bens. A todos devemos estar mutuamente gratos.


É uma estrutura de interajuda bem organizada que requer só da nossa dedicação e boa vontade para funcionar bem. Apesar de boas intenções também causarem problemas sem querer, uma grande parte dos problemas que acontece nessa estrutura tem a ver com atos que se originam no egoísmo, falta de amabilidade no trato, ganância… Tudo traços de comportamento individuais que afetam o coletivo.


Quando reclamamos da nossa sociedade estar desorganizada, ser disfuncional, falamos de nós mesmos.

Falamos de aspetos pessoais nossos, desorganizados e disfuncionais que não estamos dispostos a trabalhar e que debitamos no conjunto com os nossos comportamentos e ações. O coletivo se forma da junção de vários indivíduos, e se existe um traço comum no coletivo é porque esse traço é trazido por vários indivíduos.


Quando falamos do cansaço, exaustão das mães, da falta de ajuda entre mulheres, das falhas na educação de tal criança ou jovem, da falta da presença ativa dos homens na criação dos filhos na nossa sociedade, falamos de cada um de nós individualmente e de como nos estamos a posicionar diante de uma tarefa que é comunitária e não individual: criar um ser humano, educar um cidadão para a sociedade.


Há algumas semanas atrás recebi a notícia da gravidez de uma amiga. Há poucos dias fui convidada para ser madrinha de outro bebé que vem aí. As duas notícias fizeram sentir-me imediatamente responsável pelos dois seres humanos que aí vêm. Porquê se nem são meus filhos? E porquê responsável pela criança para a qual nem fui chamada para madrinha?


Porque me lembrei das palavras de Subunfo e Malidoma Patrice Somé nos seus livros. Subunfo e Malidoma vêm trazer-nos a perspectiva Dagara da criação de seres humanos em que desde o momento da gravidez da mãe a comunidade se junta para ajudar a criança a saber e lembrar-se de quem é e a encaminhar-se para cumprir a sua missão no mundo.


Para o povo Dagara, a criança pode ser concebida por um homem e uma mulher, mas a sua criação é da responsabilidade de toda a comunidade.

Toda a comunidade é responsável pela segurança, alimentação, saúde mental e física, conduta social e educação dessa criança. Todos na comunidade têm um papel importante na vida dessa criança o que faz com que ao longo da sua vida ela vá conhecendo e tendo laços fortes com cada indivíduo da sua comunidade reforçando a noção de respeito, cooperação e solidariedade uns com os outros.


Se alguma coisa acontece de mal com a criança, se algum traço do seu comportamento é errado, é de responsabilidade de toda a comunidade também. Os dedos não são apontados aos pais como maus educadores, mas a comunidade se junta para debater o que poderá ser a origem do problema e procurar uma solução.


Para os Dagara a educação de uma criança não depende só de pai e mãe, como a globalização ocidental sedutoramente nos convida a acreditar. Segundo esta tribo, pai e mãe têm uma perspetiva limitada da educação dos filhos e muitas vezes podem cometer injustiças nos seus julgamentos dos comportamentos ou pedidos dos filhos, precisando os filhos de um terceiro mediador que possa ter uma visão e perspetiva mais alargada dos acontecimentos e contextos.


Quando se fala de perspetiva limitada, falamos de sentimentos de posse, ciúmes, superproteção, que os pais podem ter.


A tribo Dagara entende estas limitações como perfeitamente naturais nos pais, mas que, contudo, precisam ser equilibradas e mediadas com a ajuda de outros intervenientes.

Isto faz com que o sentido de responsabilidade individual de cada um na sociedade seja mais elevado, com que a forma como se comporta perante a sociedade seja cuidada de forma a termos uma conduta correta perante as crianças, novos cidadãos que formamos, pois elas aprendem dos exemplos que observam.


De igual modo a criação de seres humanos é uma tarefa altamente desgastante. Que exige de muito esforço físico, mental e emocional por parte do ser humano que cuida e nutre. Por isso o mais justo é que haja um sistema de suporte que divida tarefas e se entreajude, para que este ser humano que trouxe a criança ao mundo não se esgote nessa tarefa, possa cumprir com as sua missão no mundo e cuidar de si mesmo.


Em cidades grandes, diferente das aldeias, é mais difícil preservar o espírito de comunidade. A comunidade é muito mais alargada, é mais difícil conhecermos todos de forma a formar laços de confiança. Mas é importante que ainda assim criemos dentro da sociedade maior pequenos núcleos, as nossas “aldeias” com pessoas em quem confiamos para nos entreajudarmos.


É importante que quando alguém que é da nossa “tribo” nos dá a notícia de um bebé a chegar, nos demos conta que é mais um integrante dessa tribo que aí vem, que esse bebé já é parte dela, e que todos nós devemos nos rever mais uma vez para sermos o nosso melhor exemplo para essa criança.


Temos todos responsabilidade por ela.

Responsabilidade por ajudar que essa gravidez seja saudável, proporcionando um ambiente harmonioso e positivo, evitando negatividade e conflitos, com atos de apoio responsáveis, responsabilidade por ajudar esse casal com a criação dessa criança, e responsabilidade por passar valores cívicos e ajudar esse ser humano a encaminhar-se para cumprir a sua missão no mundo.


Esta é uma tarefa comunitária, não uma tarefa pessoal. Por isso deve ser feita de forma incondicional, sem pormos os nossos interesses pessoais à frente, tendo valores comuns, para não chocarmos uns com os outros, ou sabendo respeitar os valores dos outros quando não comungamos dos mesmos, respeitando tanto o novo ser humano que aí vem e os pais que o trazem ao mundo. Sendo prestativos, amáveis e imparciais, sendo muitos para que não seja uma tarefa pesada para ninguém. Afinal os pais, apesar de não serem os únicos na criação das crianças, são primordiais, pelos laços óbvios que os unem, e devem ser respeitados.


Criar um ser humano requer enorme dedicação e recursos de que nem sempre dispomos sozinhos. E mesmo que disponhamos, o tempo e energia para isso é de entrega total, que é o que faz muitas mulheres mergulharem profundamente na maternidade, e às vezes homens na paternidade, e não verem uma saída dela.


Perdemo-nos na maternidade e depois já não nos reconheceremos mais como indivíduos.

Há quem chegue a uma idade avançada, tem os filhos criados e não tem cumprida a sua missão no mundo, ou sente que não sabe mais o que fazer, pois os filhos já estão grandes, crescidos, já se foram embora e não há mais ninguém para criar, ficando sem propósito de vida.


Mas se cada um de nós der um bocado de si, com boa vontade, responsabilidade, fazendo o melhor que pode, seremos muitos a dar um contributo de valor a esse ser humano, não esgotamos o nosso tempo e a nossa energia, sobra para os nós, para os nossos próprios filhos e para a nossa missão no mundo. Daí é possível: dar ao ser humano novo uma educação mais justa e equilibrada, e é possível que cada pai possa para além de ser pai, ter energia e tempo para si mesmo e para a sua missão no mundo.


Criar um ser humano não é tarefa para duas pessoas: “it takes a village!”


Sara


Photo Credit: roadiscalling.com

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